Antes que elas cresçam


Cheguei neste blog Turquezza Variedade e achei lindo esse texto e trouxe para apreciarem...Aproveitem!!

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
É que as crianças crescem. Independentes de nós como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, Elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços os disparos dos discursos e o assalto das estações elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.
Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?
Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali na porta da discoteca esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio lindas potrancas.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas lá estão elas com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou então com a suéter amarrado na cintura. Está quente a gente diz que vão estragar o suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.
Pois ali estamos depois do primeiro e do segundo casamento com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão as mães às vezez, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.
Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.
No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.
O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Affonso Romano de Sant'Anna

Comentários

  1. Por gozação costumo dizer (com redundância):
    "que coincidência coincidente"
    Os filhos crescem de uma hora para a outra... e nós somos ultrapassados.
    Meu filho que eu pensava estar solteiro, casou com uma "mineirinha" de Belo Horizonte e eu só soube uns meses depois.
    (ele é médico e está a trabalhar no Reino Unido - Escócia e agora a mulher, também trabalha no Reino Unido)
    Num ápice a minha filha apresenta-nos um neto.
    A vida desenrola-se rapidamente e temos que apanhar o ônibus em andamento... ou ficamos na rua esperando... o nada!
    Uma boa semana.

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  2. Se não me engano, hoje é dia internacional da pessoa idosa - apesar de nem todos os avós serem idosos - é uma data para lembrar de quem nos ama de forma mais descompromissada, sem tanta pressão, e dizem, duas vezes mais! Beijus,

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  3. Oi Bel,
    Eu li este texto e me emocionei muito, pois estou em uma fase da vida "órfã de filha". Isto doi muito!
    Tenha uma ótima semana.
    xoxo

    Gosto disto!

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