quarta-feira, 20 de junho de 2012

Eu julgo, tu julgas..e quem não julga?

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Por Rose Nânie Heringer da Silva

É bastante complicada esta questão do julgamento. Não deveríamos julgar, não teríamos o direito de julgar e muito menos teríamos, em princípio, capacidade de julgar, uma vez que somos, nós mesmos, cheios de falhas, de vícios, de contradições.Mas quem de nós não julga uma vez na vida?Em seu sentido jurídico, julgar quer dizer tomar uma decisão, proferir uma sentença que absolverá ou condenará. O juiz ou juíza, no exercício de sua função, como o próprio nome diz, julgará um caso, isto é, seu julgamento (sua decisão, sua opinião, seu parecer) será sempre a absolvição ou a condenação. Em seu sentido bíblico, julgar é bastante parecido com o sentido que lhe dá o campo jurídico. Parecido, mas não igual. A admoestação em não julgueis para que não sejais julgados é visivelmente diferente da função de um juiz ou juíza de Direito em seus julgamentos. A admoestação bíblica é: não devemos condenar.Mas para sermos coerentes, se não devemos condenar, devemos absolver? Posto que se não é certo condenar, será certo absolver?Julgar deveria envolver justiça. Se um ato for considerado correto, que se aplique a justiça. Se for incorreto, que se aplique a justiça. Mas como aplicar a justiça? O que entendemos de justiça? Como conseguiremos ser justos, humanos que somos e sempre com tantos sentimentos em jogo?Ser justo é para mim uma das coisas mais difíceis de conseguirmos, porque, no momento em que lidamos com entes queridos, com situações delicadas ou quando não sabemos com absoluta certeza onde está a verdade e onde está a inverdade, seremos bons, seremos caridosos, seremos racionais, seremos razoáveis. Mas nem sempre conseguiremos que se faça justiça. Muito poucas vezes seremos justos.Assim, deixando de lado os sentidos jurídico e bíblico do julgar, analisemos o que realmente acontece com todos nós – ou quase todos – no dia-a-dia. Sempre temos ou formamos uma opinião a respeito de algo ou alguém. Em outras palavras, todos ou quase todos julgamos (e quase inevitavelmente, absolviremos ou condenaremos).Em Pseudologia Fantástica mencionei que dificilmente uma pessoa não tenha dito ao menos uma mentira, uma única, ao longo de sua vida. E agora pergunto quem dentre nós jamais julgou alguém, algum evento, alguma coisa? Quem nunca emitiu um parecer ou formou um conceito a respeito de algo ou alguém? E quem nunca condenou ou absolveu? Digamos que minha discrição seja tamanha que jamais verbalizo as opiniões que formo a respeito de alguém. Por exemplo, acho aquela moça muito desorganizada. Não falo nada, nem para ela nem para ninguém. Tenho esse conceito e fico com ele só para mim. Se cheguei a essa quase perfeição, isto é ótimo, mas é realmente uma quase perfeição, pois ainda que não tenha verbalizado, formei uma opinião e julguei em pensamento. Neste exemplo, como não gosto de desorganização, em pensamento condenei. Vejamos um exemplo totalmente diverso: aquele rapaz é tão popular! Não comento nada com ninguém, apenas penso. Mas ele já está absolvido, porque ou acho a popularidade o máximo ou porque ser popular é uma virtude que eu gostaria de ter. Em pensamento, julguei. Em pensamento, absolvi.Sempre, sempre, ou condenamos ou absolvemos.Uma vez fiquei impressionada com o que disse o autor de um livro quando ele afirmou que o ideal seria que apenas víssemos as coisas ou as pessoas ou os acontecimentos. Sem pensar nada nem em nada. Sem formar opinião. Sem dizer nada. Vejo uma árvore. Apenas vejo. Nada mais. Nenhuma palavra ou pensamento com relação à árvore.Como achei complicado aquilo! Aliás, como acho complicado, porque até hoje não consegui me comportar desta forma. Se vejo uma árvore, no mínimo penso que ela é bonita, frondosa, que dá uma sombra muito agradável. Se vejo uma coisa muito bonita, não consigo apenas ver e não pensar: que coisa linda! E acredito que o mesmo ocorre com essa questão de julgamentos, condenações e absolvições. Condenamos porque tudo o que é diferente do que pensamos não nos agrada. O mesmo raciocínio vale para a absolvição. Os termos mais adequados seriam rejeição e aceitação; porém, usarei aqueles porque julgamento é forte, então deverá ser forte seu veredicto. Todos temos nossas opiniões, isto é natural e inevitável. E saudável. Essas idéias que fazemos das coisas, das pessoas e das situações vão mudando ao longo da vida como resultado de nossas experiências, das lições que aprendemos e através da constatação de que determinadas coisas simplesmente não importam, ou nunca foram realmente importantes ou simplesmente deixaram de importar, pelo menos para nós. Nossas opiniões sempre redundam em condenações ou absolvições. Desta forma, essas condenações ou absolvições também poderão mudar à medida que nossas opiniões forem se modificando. Note bem, usei aqui o verbo poder, ou seja, há a possibilidade de os resultados de nossos julgamentos mudarem. Ou não.Quando conheço determinada pessoa, é mais que natural que comece a avaliar seu comportamento, suas atitudes, seu jeito de falar, suas crenças, suas opiniões. De que outra forma poderei saber se ela é adequada para meu círculo de amizades? De que outra forma poderei, se precisar conviver com ela, seja por que motivo for, tentar os caminhos mais amenos para uma convivência satisfatória? Ou de que outra forma poderia conjecturar a idéia de começar qualquer tipo de relacionamento? Existem os casos de simpatia e antipatia à primeira vista. Mas ainda esses casos muitas vezes podem se revelar da maior ilusão. Porque tanto no que concerne ao súbito sentimento de simpatia ou antipatia, quanto no que diz respeito a julgamentos, tais como julgar a veracidade e a autenticidade de fatos e formar opiniões e conceitos, nem sempre a primeira impressão (que dizem que fica) é a verdadeira, como nem sempre é certo que as aparências sempre enganam.Por tudo isto, creio que quando se diz que não se deve condenar, também acredito que não se deva absolver. Se condenar ou absolver, terei como base única e exclusivamente as MINHAS verdades, tudo aquilo que EU acho ser o correto. Condenarei ou absolverei com fundamento no que aprendi e nas minhas opiniões DE AGORA. Todavia, quem sabe qual será minha opinião daqui a alguns dias, ou meses ou anos? Quem sabe qual seria, hoje mesmo, no presente, minha atitude se estivesse no lugar daquele que agora é meu julgado e condenado, ou julgado e absolvido?Talvez, o correto, já que somos humanos e com tantas virtudes a apreender e tantos vícios a eliminar, seja exatamente observarmos as diferenças para NOS julgarmos, ou melhor, NOS AVALIARMOS, e vermos o que precisamos fazer com relação ao resultado dessa nossa avaliação.É importante que se diga, neste ponto, que não estou querendo dizer que doravante ninguém mais vai falar nada, que ninguém vai fazer uma crítica construtiva, dar um toque quando achar que o outro cometeu algum equívoco ou que vamos todos nos calar e observar, observar e nos calar. Não quero dizer, tampouco que viveremos a lucubrar, a nos afastar, a procurar dentro de nós o pior, porque estamos certos de existir o pior dentro de nós, para nos crucificarmos, ou descobrir o melhor, porque sabemos que existe muita coisa boa, para nos valermos disto e nos perdoarmos sempre. Não é isto. Viver é aprender, é ensinar, é interagir. Estamos neste mundo para viver, desistir, insistir, perseverar, errar, acertar, aprender, ensinar, corrigir, construir, demolir e reconstruir. Viver é muitas vezes chegar a pensar que não há mais solução, e ainda assim reunir forças, esperança e uma dose de alegria e bom humor para recomeçar.O que quero dizer é que não adianta apenas ficarmos com o dedo apontado para os outros ou, de outro lado, com uma espada sobre nossas próprias cabeças. Talvez fosse mais salutar não sermos totalmente transigentes nem totalmente intransigentes. Nem com o outro nem conosco.A mudança é um fato. Não pensamos hoje como pensávamos há dez ou vinte anos. Com toda a certeza não pensaremos daqui a dez ou vinte anos como pensamos hoje. O que também não quer dizer que tenhamos nos transformado totalmente ou que nos transformaremos totalmente. Fala-se aqui de mudança (tão natural quanto inevitável), não de transformação (casos extremos).Por isto, por causa da flexibilidade da vida, antes de julgarmos (condenarmos ou absolvermos) com base apenas nos nosso valores, nos valores vigentes, nos valores dos nossos amigos, da nossa família, da nossa religião, deveríamos sempre nos lembrar de que no passado podemos ter adotado aquele modo de pensar ou que podemos ter tido mesmíssima reação diante de determinadas situações.Deveríamos parar e avaliar os motivos subjacentes a uma determinada atitude, omissão ou opinião. Além do mais, quem sabe se no futuro também não estaremos pensando da mesma forma que aquela outra pessoa está pensando agora, seja porque teremos aprendido com alguma experiência que a vida nos reservou, seja porque teremos percebido algo de incorreto em nossa maneira de viver?Não acho que seja demais observarmos, avaliarmos, abrirmos a mente quando necessário se fizer e prosseguirmos. Apenas prosseguirmos. Melhores, mudados, conscientes.Se alguma atitude mexeu tanto comigo a ponto de me fazer julgar de imediato, é porque talvez seja o momento de rever minhas crenças, opiniões e atitudes. Se me chocou tanto, se me contrariou tanto, por que não aproveito o momento para me questionar?Acredito que tanto a admoestação bíblica, para que não julguemos, como o que disse o Cristo com relação aos que queriam apedrejar Maria Madalena – “Quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra” – contêm em seu âmago a mensagem maior, que vai muito além de nos rendermos às nossas limitações.Em minha interpretação, a mensagem é que devemos pensar, avaliar e repensar opiniões, conceitos e “pecados”, e não simplesmente jogar as pedras no chão e seguir em frente, como se nada de diferente tivesse acontecido antes de pegarmos as pedras e depois que tivemos que jogá-las fora.Alguma mudança terá início a partir de então. E só desta forma prosseguiremos. Melhores, mudados, conscientes. Tendo aprendido a lição de que não se deve condenar nem absolver, mas tomar atitudes sérias e menos vaidosas ou levianas: julgar apenas para modificar o que estar errado. E assim prosseguiremos para novas mudanças que virão após novos julgamentos construtivos.







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